Feed
Posts

nazismo

Alguns alunos, vez por outra, repetem uma frase do senso comum que entristece muito os professores de História: “Pra que estudar esse assunto se isso já aconteceu há tanto tempo?” Respondo que o nosso presente é o resultado dos acontecimentos passados, que a História é uma ferramenta para a compreensão do nosso tempo, o que só é possível se nos voltarmos para o passado.

Vejam um exemplo: Estava lendo uma notícia sobre o assassinato de moradores de rua na cidade de São Paulo, e chamou a minha atenção a suspeita da polícia de que os crimes tenham sido praticados por grupos neonazistas. Mas se o nazismo é coisa do passado, por que alguns grupos, em diversas partes do mundo, inclusive no “amistoso” Brasil, teimam em manter viva essa memória? O que a História pode nos dizer?

As origens do nazismo

Após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os países europeus enfrentaram uma grave crise econômica. Mas as economias dos países capitalistas no resto do mundo também entraram em crise. A única referência de estabilidade nesse período era a União Soviética. Assim, os grandes empresários temiam que a revolução socialista se espalhasse pela Europa, pois muitos operários e intelectuais já simpatizavam com as idéias comunistas. Naquele momento, os regimes políticos autoritários foram vistos como a solução, juntamente com os partidos políticos de extrema direita, que recebiam o nome de fascismo.

Os fascistas propunham um governo exercido por um líder que acabasse com a desordem provocada por agitadores de esquerda e com força para manter a economia crescendo, sem os excessos de liberdade da democracia capitalista. É preciso esclarecer que os fascistas defendiam o capitalismo, apoiavam a burguesia, mas acabavam com a democracia: propunham a existência de um partido único, sem eleições, com censura para os inimigos do Estado e controle dos sindicatos pelo governo. Eram totalmente contra os comunistas, pois não aceitavam o princípio de igualdade entre indivíduos e povos. Defendiam o militarismo e o uso da violência e um nacionalismo xenófobo (que tem ódio aos estrangeiros). Tudo isso baseado no racismo, ou na idéia de que alguns povos são superiores e devem buscar manter sua pureza. Para os fascistas, os diferentes eram vistos como inferiores. Sendo assim, judeus, negros, ciganos e homossexuais deveriam ser eliminados. As mulheres, por sua vez, deveriam ser submissas.

Na Alemanha, o fascismo recebeu o nome de nazismo e teve seu destaque na figura de Adolf Hitler. Os nazistas tomaram o poder em 1933. Mas como isso aconteceu? Ao fim da Primeira Guerra, a Alemanha amargou uma vergonhosa derrota, além de ter sido obrigada a pagar indenização aos vencedores (ingleses e franceses). A crise econômica aumentou o desemprego. Os nazistas prometiam restaurar o orgulho perdido dos alemães, levando-os a acreditar na existência de uma raça superior às demais: a “raça ariana” (origem do povo germânico). Pelo uso da propaganda política e pela unidade partidária, conseguiram tomar o poder com um golpe de Estado, apoiados pelos grandes empresários e pela cúpula das Forças Armadas.

Hitler era austríaco e entrou para o Partido Nazista Alemão em 1923. Ele uniu a Áustria e a Alemanha num mesmo país e iniciou a Segunda Guerra Mundial em 1939, prometendo fazer da Alemanha um império. Nessa guerra, conforme vemos na literatura e no cinema, muitos judeus foram torturados, levados para o trabalho forçado em campos de concentração e até executados em câmaras de gás.

O nazismo e todo horror que ele provocou não foi uma ação isolada de Hitler, mas sim o produto das condições sociais e econômicas da Alemanha nos anos 30, o que explica, mas não justifica, tanto ódio e preconceito.

O fascismo no Brasil

Havia também no Brasil um partido fascista: a Ação Integralista Brasileira. Foi criado com o objetivo de conter os comunistas. Contra os integralistas e o Presidente Getúlio Vargas, formou-se a Aliança Nacional Libertadora (ANL), partido que reunia comunistas e tenentes de esquerda. Eles propunham a reforma agrária e o nacionalismo e temiam que Vargas e os integralistas implantassem uma ditadura fascista no Brasil. Planejaram, então, um movimento de oposição ao governo, mas não houve coesão e Getúlio os controlou facilmente. Vargas colocou a culpa da revolta, não na ANL, mas no Partido Comunista Brasileiro. Foi por isso que o movimento recebeu o nome de Intentona Comunista de 1935.

Vários líderes foram presos nesse período, inclusive o comunista Luís Carlos Prestes. Sua esposa, Olga Benário, era alemã e judia e, mesmo grávida de Prestes, foi extraditada e entregue ao governo de Hitler. Olga era conhecida mundialmente pela sua militância na Internacional Comunista, e há muito tempo os nazistas desejavam eliminá-la.

Olga teve sua filha Anita em um campo de concentração e morreu numa câmara de gás em 1942. Essa história é contada no livro Olga, do jornalista Fernando Morais. Recentemente, foi lançada no cinema. Sugiro a você que procure conhecer a vida dessas pessoas, que foram traídas e sofreram na pele o preconceito e o racismo, mas conservaram a esperança e a crença na possibilidade de haver um mundo melhor.

A resistência de um cristão

Durante o tempo em que Hitler cometeu seus atos deploráveis, Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) levantou-se contra o nazismo. Ele era teólogo e pastor luterano. Foi aconselhado por amigos a deixar a Alemanha, mas dizia que só poderia colaborar com seu povo se lá permanecesse. Bonhoeffer comprometeu-se com o movimento de resistência e foi preso pela Gestapo (polícia nazista) em abril de 1943.

Durante os dois anos em que esteve na prisão, ele escreveu e testemunhou sua fé em Jesus Cristo. Bonhoeffer criticou bastante os cristãos que se acomodavam a uma “graça barata”, que pensavam que ser cristão significava simplesmente freqüentar uma igreja, descansando na certeza de que seus pecados haviam sido perdoados, sem ter nenhuma atuação relevante diante das injustiças do mundo.

Dizia que, enquanto isso acontecesse, Hitler continuaria triunfando, mas se os cristãos se comportassem como discípulos de Cristo a qualquer custo, os seres humanos poderiam experimentar a verdadeira graça divina. No entender de Bonhoeffer, Deus nos colocou neste mundo e, enquanto aqui estivermos, é com este, e não com outro mundo que devemos nos preocupar.

Conclusão

A Palavra de Deus condena o racismo e o preconceito. Veja o que escreveu o apóstolo Paulo: “Porque as Escrituras Sagradas dizem: ‘Quem crer nele não ficará desiludido.’ Isso vale para todos… Deus é o mesmo Senhor de todos e abençoa generosamente todos os que pedem a sua ajuda. Desse modo, não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres…” Romanos 10.11,12 e Gálatas 3.28- NTLH

Jesus não morreu apenas por mim e por você. Ele morreu também pelos judeus, negros, ciganos, homossexuais, comunistas e até pelos racistas e neonazistas.

Dilaine de Oliveira Pereira
Professora de História – Rio de Janeiro – RJ

Comentários encerrados