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Pivetes na igreja

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O tema deste estudo é tomado de empréstimo de uma crônica de Affonso Romano de Sant’Anna, intitulada “Pivetes da Honra Alheia”, em que compara os maledicentes aos pivetes “que pelas esquinas sacam uma carteira, um colar ou relógio do transeunte e desaparecem impunemente” (O Globo 9/5/93).

No Pacto das Igrejas Batistas se lê que os crentes farão todo o esforço possível para evitar a “detração”. Que palavra estranha, não? Mas significa maledicência.

Vários textos da Bíblia nos aconselham sobre a “língua”. Alguns salmos, por exemplo, dentre os quais destaco estes:

“Guarda a tua língua do mal, e os teus lábios de falarem dolosamente” (34.13).

“Disse eu: Guardarei os meus caminhos para não pecar com a minha língua” (39.1).

O versículo 21 do salmo 55 diz: “…as suas palavras eram… espadas desembainhadas.”

E em Salmos 140.3 lemos: “Aguçaram as línguas como a serpente; peçonha de áspides está debaixo dos seus lábios.”

Ainda mais enfático é o livro de Provérbios. Seguem exemplos.

“O que guarda a sua boca preserva a sua vida, mas o que muito abre os seus lábios traz sobre si a ruína” (13.3).

“A morte e a vida estão no poder da língua…’’ (18.21).

‘’Refreia as suas palavras aquele que possui o conhecimento…” (17.27).

“O que guarda a sua boca e a sua língua, guarda das angústias a sua alma” (21.23).

O próprio Jesus deixou uma advertência muito clara: “…pelas tuas palavras serás justificado, pelas tuas palavras serás condenado” (Mateus 12.37). Mas o texto bíblico que mais detalhes oferece sobre o assunto é Tiago 3.1-10. Examinando-o com a lupa da humildade e da fé, aprenderemos que…

1. A maledicência é prova de que não conhecemos a Deus.

Tiago já havia falado sobre isso no primeiro capítulo: ‘’Se alguém cuida ser religioso e não refreia a sua língua, mas engana o seu coração, a sua religião é vã” (versículo 26).

Convém atentar para o fato de que Tiago é quem mais cobra dos crentes a coerência entre a fé e as obras. De modo que as obras produzidas pelo mau uso da língua são um testemunho de que não há fé no coração.

É triste ter que admitir que a maledicência é uma erva daninha e danosa na vida de muitas pessoas. É lamentável que tão freqüentemente seja necessário o pastor de sua igreja pregar sobre o assunto. Parece que certos crentes não aprendem. Fofoca é coisa de incrédulo.

Tiago diz que a língua fofoqueira é “inflamada pelo inferno” (3.6). A palavra usada aqui para “inferno” é GEENA .

Geena era um vale na periferia de Jerusalém onde os antigos cananeus queimavam seus filhos ao deus Moleque. Mais tarde, tornou-se o local onde se jogava todo o lixo da cidade para ser queimado. Havia ali, portanto, um fogo permanente. Por isso o lugar foi usado como símbolo do inferno. Tiago diz, então, que a língua do maledicente é movida a fogo do inferno. E sabemos quem é o administrador do inferno.

2. A maledicência é prova de que não nos conhecemos.

Adverte Tiago no versículo 2 que “todos tropeçamos em muitas coisas”. Todos erramos. Então por que comentamos os erros alheios? Por que temos que divulgá-los? Por que publicá-los? Por que escutá-los? Por que celebrá-los? De fato, tão grave quanto falar mal dos outros é ouvir o mal que se fala dos outros, procurando saber qual é a última novidade.

Li de um homem que mantém sobre sua escrivaninha uma bonita pedra. Ele a usa como peso para papel. Detalhe:
mandou escrever nela a palavra “PRIMEIRO”. Para quê? Para se lembrar das palavras de Jesus: “Aquele dentre vós que está sem pecado seja o PRIMEIRO que lhe atire uma pedra” (João 8.7b, grifo JSF). Isto, primeiramente,
ajuda-o a não ser apressado em condenar os outros. Mas a pedra tem ainda outra função: Quando uma pessoa vai ao seu escritório falar mal de alguém, ele, tranqüilamente, entrega a pedra a essa pessoa. Sem entender nada, ela geralmente examina a  pedra com curiosidade e então pergunta qual a razão de nela estar escrita a palavra  PRIMEIRO.

Ouvida a explicação, logo a pessoa muda a sua atitude. Sim, “todos tropeçamos em muitas coisas”. William Barclay
escreveu: “Não há pecado mais fácil de ser cometido do que o da língua; não há pecado de mais graves conseqüências do que o da língua” (The Letter of James, p. 96). A língua pode despedaçar amizades antigas, pode quebrar laços de família, pode romper vínculos que foram construídos penosamente.

W. E. Poovey disse: “Uma língua afiada pode causar mais feridas do que um ataque físico. Feridas no corpo
podem ser curadas, mas as palavras más podem causar dor por muitos anos.” E Edmund Burke, notável orador inglês, disse certa vez: “Grande parte das discórdias que molestam o mundo surgem das palavras.”

Uma verdade a respeito da maledicência é que ela quase sempre modifica o conteúdo de uma mensagem. Por exemplo, quando Absalão matou seu irmão Amnom, “chegou a Davi um rumor, segundo o qual se dizia: Absalão matou todos os filhos do rei; nenhum deles ficou” (2Samuel 13.30). Absalão não matou TODOS os seus irmãos,
mas só um deles. Acontece que a maledicência é assim mesmo:  superdimensiona fatos, exagera verdades, aumenta frases, adultera dados, torce conteúdos, acrescenta emoções, amplia tragédias, deforma cenários.

Tudo isso é muito triste, ainda mais se levarmos em conta as excelentes possibilidades do bom uso da língua. Por exemplo:

1. Ela pode ser um instrumento de louvor a Deus.

2. Ela pode ser um instrumento de evangelização de seus amigos.

3. Ela pode ser um instrumento de apoio moral e psicológico (quando usada para elogiar).

4. Ela pode expressar uma declaração de amor.

5. Ela pode oferecer uma palavra de conforto (“Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a
seu tempo” (Provérbios 25.11).

O Departamento de Pesquisa Alimentar da Universidade Estadual de Michigan (EUA), após anos de pesquisas,
descobriu uma forma de descascar cebolas sem fazer os olhos lacrimejarem. Afirmam que “não haverá mais lágrimas
se você cumprir essa tarefa conservando a boca fechada”.

De fato, muitas lágrimas seriam evitadas se seguíssemos o conselho desses pesquisadores. Em muitos casos, a boca
fechada é uma grande bênção. Affonso Romano de Sant’Anna termina sua crônica com um poema feito por ele:

Cilada Verbal
Há vários modos de matar um homem: com o tiro, a fome, a espada ou com a palavra envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte a frase engatilhada e o outro morre – na sintaxe da emboscada.

João Soares da Fonseca
Pastor – Rio de Janeiro – RJ
E-mail: jsfonsec@yahoo.ca

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