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Herói sem rumo

 

Há heróis cujos nomes estão sempre em nossas mentes. Mas há outros que parece que o tempo esqueceu. Itaí é um deles.
Levantemos a cortina do esquecimento e estudemos o exemplo desse herói de poucas referências. Vamos encontrá-lo ao lado do rei Davi. Sempre que é citado na Bíblia, Itaí surge em conexão com Davi. O episódio que desejo destacar começa com um fato muito triste. Vejamos. Davi decide fugir do próprio filho.

Absalão era um moço bonito. Diz a Bíblia: “Não havia em todo o Israel homem tão admirável pela sua beleza como Absalão; desde a planta do pé até o alto da cabeça não havia nele defeito algum” (2Samuel 14.25). Contudo, se não havia defeitos no corpo, havia na alma. O que ele tinha de bonito, tinha de malvado. Seus olhos faiscavam ódio contra tudo e contra todos. Além do mais, Absalão tinha uma idéia fixa: a de tornar-se o rei de Israel. Em 2Samuel 15.6, lemos que ele “furtava o coração dos homens”, praticando a mais suja demagogia. Ele sabia o que estava fazendo ao “furtar o coração” das pessoas, porque bem sabia que, “se conquistasse o coração, teria a bolsa e a vida” dessas pessoas em suas mãos (cf. Matthew Henry).

Apaixonado pela coroa, Absalão hasteou a bandeira da revolta. Seu nome (em hebraico, pai da paz) nada significava para ele. Rasgou sua certidão de nascimento, como se dissesse: “Eu quero guerra, sangue, trono.” Reuniu 50 homens, carro e cavalos e foi combater o seu principal inimigo: o próprio pai.

Ao ser informado de que seu filho vinha de encontro a ele, Davi bateu em retirada. Como excelente guerreiro que era, Davi poderia ter ficado para enfrentar o audacioso aspirante ao trono. Mas, em vez de cometer filicídio (o crime de matar o próprio filho), optou pela fuga. A Bíblia Vida Nova comenta: “Às vezes a vitória está na fuga.” Davi fugiu, ganhou tempo, apoio e… a guerra! A Bíblia cita outros personagens que, em situações de perigo, fugiram: Ló fugiu de Sodoma. José fugiu da mulher de Potifar. Moisés fugiu do Egito. E o apóstolo Paulo recomenda: “Fugi da impureza” (1Coríntios 6.18) e “da idolatria” (10.14). E ainda: “Foge das paixões da mocidade” (2Timóteo 2.22).

Davi decidiu abandonar Jerusalém, mas, para que o palácio não ficasse às moscas, deixou nele dez empregadas (“concubinas”, 2Samuel 15.16), que depois foram violentadas publicamente por Absalão, num ato extremamente repulsivo desse belo maluco (16.22).

A fidelidade de Itaí
O relato do episódio em que Davi deixa a cidade é dos mais tristes da Bíblia. O verso 30 bem o resume: “Davi, subindo pela encosta do monte das Oliveiras, ia chorando; tinha a cabeça coberta, e caminhava com os pés descalços”. Mas não ia sozinho. “…saiu o rei, com todos os da sua casa… e todos os seus servos iam ao seu lado…” (vv 16, 18).

É nesse cenário caótico que vai aparecer a pessoa de Itaí. Davi o vê entre os que o acompanham e pondera que ele deve ficar, que será mais vantajoso e seguro para ele e seus filhos ficarem em Jerusalém e aderirem ao novo rei. Observa-se que
Davi não exigiu que as pessoas fossem com ele. A decisão era voluntária. Mais tarde, o Filho de Davi agiria de modo semelhante. Diria Jesus: “Se alguém quer vir após mim, negue- se a si mesmo…” (Lucas 9.23). No reino de Deus não há espaço para o compulsório. Ou seja, ninguém é obrigado a seguir a Cristo. Itaí ouve os argumentos do rei, mas toma uma decisão radical e faz uma declaração comovente. Diz ele: “Vive o Senhor, e vive o rei meu senhor, que no lugar em que estiver o rei meu senhor, seja para morte, seja para vida, aí estará também o teu servo” (15.21).

Primeiramente, consideremos quem era Itaí. Diz a Bíblia que era giteu (15.19). Giteu era quem nascia em Gate, o principal reduto dos filisteus. Os filisteus eram os maiores inimigos de Davi. Portanto, Itaí descendia de inimigos, mas decidiu ser amigo do rei. Não temos que desprezar a boa religião só porque os nossos antepassados a tenham desprezado. Não somos reprodutores dos erros da História. Ninguém tem que ser ladrão só porque talvez descenda de um. Nosso destino no mundo é, em grande parte, definido por nossas próprias decisões. Não é questão de genética. É questão de ética.

Itaí escolheu ficar ao lado do rei. Disse ele: “…seja para morte, seja para vida…” (15.21). Ele não foi interesseiro. Para ele, não importava mais viver ou morrer, perder ou ganhar, contanto que estivesse “no lugar em que estivesse o rei”. Sua postura lembra muito a do apóstolo Paulo ao escrever: “…se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. De sorte que, quer vivamos quer morramos, somos do Senhor” (Romanos 14.8).

Diz o verso 23 que a multidão sofrida “caminhava na direção do deserto”. Davi não iludiu ninguém. Todos sabiam que estavam fugindo de um homem violento, e que o destino certo era o deserto incerto. Davi não prometeu o paraíso, mas um deserto. E ainda assim o povo foi com ele. Semelhantemente, Jesus não nos promete glórias, medalhas, condecorações ou holofotes. Mas a sua presença vai conosco e, com sua presença, a vitória é certa.

Contrastes entre Absalão e Itaí
Alguns contrastes entre esses dois personagens são evidentes: Absalão era israelita, tendo atrás de si todo o registro da história da atuação de Deus no meio de seu povo. Israel era um milagre. Cada israelita era outro. Ainda assim, Absalão age como se Deus não existisse. Itaí era filisteu em sua origem. Significa que era pagão, sem lei, distanciado do conhecimento de Deus. Mas, observando os fatos, ele tira suas próprias conclusões e toma a decisão correta.

Absalão, filho do rei, odiava o rei. Itaí, estrangeiro, amava o rei. Gosto de enfatizar o fato de que, muitas vezes, pessoas sem pedigree espiritual se portam melhor do que alguns cristãos. Não devia ser assim. Jesus disse que a nossa vida deveria ser mais reta que a dos escribas e fariseus (Mateus 5.20).

Absalão era filho do rei, mas o seu coração estava longe dele. Itaí não tinha qualquer vínculo sanguíneo com o rei, mas o seu coração pertencia ao rei. Esse triste contraste foi destacado por Jesus em vigorosa denúncia no fim da parábola dos dois filhos: “…os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus” (Mateus 21.31).

Conclusão
Concluo fazendo um último destaque. É o verso 22. Diz que Itaí passou para o lado do rei, ele “e todos os pequeninos que havia com ele”.

Um antigo autor inglês imaginou um possível diálogo, que desejo visualizar mais ou menos assim: Uma dessas crianças se vira para Itaí e pergunta:
– Papai, para onde estamos indo?
E o pai responde:
– Filho, não sabemos.
– Como assim? O senhor entrou em casa, pegou apenas uma mochila e disse que íamos todos viajar… Mas… para onde?
– Filho, não sabemos para onde. Mas sabemos que estamos seguindo o rei.

Não importa o rumo que nossa vida tome, desde que o Rei Jesus esteja na direção.

Comentário para “Herói sem rumo”

  1. Júlia disse:

    Bom dia , Gostei muuuito do Blog , eu sou mensageira da primeira Igreja batista do barreiro de cima em BH , e gostaria de deixar o endereço do blog das mensageiras da minha igreja aqui , entrem la ainda estamos no começo do blog mas vai ficar bem legal : http://mensageirasdapibbc.blogspot.com/
    muito obrigada e parabens pelo blog de vocês ! abraço s2